Há um tipo de cansaço que não melhora apenas com uma noite de sono.
A pessoa pode não ter realizado nenhum esforço físico extraordinário e, ainda assim, terminar o dia como se tivesse atravessado uma longa batalha. O corpo pesa, a mente perde nitidez, qualquer conversa parece exigir demais e surge uma necessidade quase urgente de fechar a porta, reduzir a luz e ficar em silêncio.
Por fora, talvez ninguém perceba. A pessoa trabalhou, respondeu, sorriu, sustentou conversas e cumpriu o que esperavam dela. Por dentro, porém, precisou observar cada gesto, calcular respostas, conter incômodos, suportar estímulos e adaptar continuamente sua maneira de existir.
Esse é o paradoxo do esforço: quanto mais alguém se empenha para parecer espontâneo, adequado e “normal”, menos espontânea pode se tornar a sua experiência. A energia deixa de ser empregada apenas para viver o encontro e passa a ser consumida também na administração constante da própria presença.
O ambiente vê o resultado — a resposta educada, o trabalho entregue, a conversa mantida —, mas não acompanha o esforço necessário para produzi-lo. A literatura sobre camuflagem social em pessoas autistas relaciona o masking prolongado a exaustão, pior saúde mental e desgaste da identidade. É um fenômeno real e heterogêneo, que merece ser reconhecido sem culpa e sem ser transformado em diagnóstico automático (Cook et al., 2021; Zhuang et al., 2023).
A Batalha Invisível: Por que a Camuflagem Social Causa Tanta Exaustão?
Nem toda exaustão nasce do excesso de tarefas. Às vezes, ela nasce do excesso de monitoramento.
Ao longo do dia, a pessoa pode monitorar o tom da voz, a expressão do rosto, o momento certo de falar e quais reações precisam ser escondidas. Ao mesmo tempo, suporta ruídos, luzes, cheiros, imprevisibilidade e interações que continuam exigindo respostas quando a energia já terminou. Somadas, essas operações formam um estado contínuo de vigilância.
É por isso que algumas pessoas descrevem um verdadeiro déficit de energia ao final do dia. A expressão é uma metáfora para um custo cognitivo, emocional e corporal percebido: atenção dividida, antecipação de riscos, contenção de respostas e o desgaste de ter traduzido a si mesmo durante horas — não uma alteração metabólica específica.
Nas pesquisas sobre burnout autista, esse esgotamento pode envolver exaustão persistente, redução temporária da capacidade de realizar atividades e menor tolerância a estímulos. Demandas cumulativas, falta de acomodações e pressão para camuflar aparecem entre os fatores associados (Raymaker et al., 2020; Ali et al., 2025). Outras causas de fadiga — emocionais, ocupacionais ou médicas — continuam precisando ser consideradas.
O problema se intensifica quando a pessoa responde ao esgotamento com ainda mais cobrança:
“Eu deveria conseguir. Preciso me controlar melhor. Não posso me incomodar com isso.”
Nesse ponto, a tentativa de vencer o cansaço pela força pode repetir exatamente o mecanismo que ajudou a produzi-lo: mais controle diante do excesso de controle, mais desempenho diante da exaustão e mais repressão diante de um organismo já sobrecarregado.
Na psicoterapia estratégica, Watzlawick, Weakland e Fisch (1974) chamaram atenção para as “soluções tentadas” — como exploramos no artigo sobre por que entendemos o problema no racional, mas não conseguimos mudar no emocional: respostas que fazem sentido, mas que, repetidas rigidamente, ajudam a manter o problema. Quanto mais a pessoa se obriga a não sentir ou demonstrar, mais precisa vigiar aquilo que deseja eliminar.
Talvez a pergunta mais útil, portanto, não seja “como suportar mais?”, mas:
Quanta energia você gasta para esconder aquilo que seu corpo já está tentando comunicar?
O que é a Camuflagem Social (Masking) e qual o seu preço?
Masking — ou camuflagem social — é o uso consciente ou automatizado de estratégias para esconder, compensar ou modificar características pessoais a fim de corresponder às expectativas de determinado ambiente.
Na literatura científica, o conceito foi estudado principalmente em pessoas autistas. Pode envolver conter movimentos espontâneos, ensaiar falas, imitar expressões, forçar contato visual, usar roteiros sociais, demonstrar emoções esperadas ou esconder a necessidade de silêncio, previsibilidade e redução de estímulos (Cook et al., 2021).
Pessoas com outras formas de neurodivergência também podem relatar esforços semelhantes. Entretanto, os achados mais consistentes disponíveis hoje se concentram no autismo; “alta sensibilidade”, TDAH e camuflagem autista não são conceitos equivalentes.
A camuflagem pode cumprir uma função legítima. Em ambientes pouco acolhedores, protege contra humilhação ou exclusão e pode facilitar o acesso a espaços, relações e oportunidades. O problema começa quando deixa de ser uma escolha circunstancial e se transforma em condição permanente de pertencimento.
Nesse ponto, cada encontro passa a envolver duas atividades: participar e administrar a própria apresentação. Esse desdobramento ajuda a explicar por que uma interação simples pode produzir exaustão desproporcional: o custo está também na distância continuamente mantida entre a experiência interna e o que se mostra ao mundo.
Estudos qualitativos descrevem essa ambivalência: camuflar pode oferecer proteção e acesso social, mas também exaustão, isolamento e perda de identidade (Bradley et al., 2021). Revisões mais amplas encontram associação com piores desfechos de saúde mental, embora camuflagem e sofrimento possam alimentar um ao outro (Cook et al., 2021; Hodge & Meltzoff, 2026).
Para algumas pessoas, determinadas estratégias sociais ampliaram sua autonomia. Para outras, tornaram-se uma armadura que já não pode ser retirada sem medo. A questão não é decidir de fora se alguém deve camuflar, mas compreender quanto há de escolha, segurança e custo naquela adaptação.
Com o tempo, pode surgir uma pergunta silenciosa e dolorosa:
“Se eu deixar de representar, as pessoas continuarão comigo?”
Reduzir o masking significa recuperar liberdade de escolha. A pessoa pode continuar sendo gentil e socialmente cuidadosa sem falsificar entusiasmo ou esconder todos os desconfortos. Em alguns ambientes será possível mostrar-se mais; em outros, a proteção ainda será necessária.
A autenticidade madura não elimina a consideração pelo outro. Ela inclui também consideração por si.
Esse processo costuma ser gradual. Pode começar quando a pessoa deixa de sustentar contato visual durante toda a conversa, pede instruções mais claras ou se permite uma pausa sem inventar justificativas.
Também depende do ambiente. Não se pode exigir autenticidade de alguém e, ao mesmo tempo, punir toda diferença que se torna visível. Relações mais seguras são aquelas em que a pessoa não precisa escolher continuamente entre pertencimento e autorrespeito. Por isso, reduzir o custo da camuflagem não é responsabilidade exclusiva de quem camufla: famílias, equipes, instituições e profissionais também participam da construção de espaços mais habitáveis.
Sobrecarga Sensorial: Quando o mundo é barulhento demais
Para algumas pessoas, determinados estímulos não permanecem no fundo da experiência. Um ruído repetitivo, uma luz intensa, uma conversa paralela, um cheiro invasivo ou a proximidade física de outras pessoas pode ocupar o centro inteiro da atenção.
É tentador descrever isso como um “sistema sem filtro”. A imagem ajuda, embora não exista um único mecanismo responsável por todas as diferenças sensoriais. Cada pessoa apresenta um perfil próprio, e o processamento sensorial é reconhecido como dimensão importante da experiência autista (Robertson & Baron-Cohen, 2017).
Enquanto alguém quase não percebe determinado barulho, outra pessoa sente o corpo responder: os músculos se contraem, a respiração muda, a irritação cresce e o pensamento fica preso à origem do estímulo. Em situações de sobrecarga, interagir, organizar ideias ou tomar decisões pode se tornar muito mais difícil.
O ambiente social pode ampliar essa carga. Além de suportar o estímulo, a pessoa talvez precise esconder que ele a incomoda, continuar conversando e justificar por que precisa sair. Sobrecarga sensorial e camuflagem passam, então, a operar juntas: uma aumenta a necessidade de proteção enquanto a outra dificulta pedir essa proteção abertamente.
Metaforicamente, luzes, sons e interações podem funcionar como “parasitas de energia”: não a roubam literalmente, mas exigem monitoramento, dificultam o repouso atencional e acrescentam carga a outras demandas.
O sofrimento aumenta quando a pessoa tenta obrigar a mente a não perceber:
“Não escute. Pare de prestar atenção. Isso não deveria me incomodar.”
Quanto mais verifica se conseguiu ignorar, mais retorna ao estímulo. É outro exemplo de solução tentada: o esforço de não perceber exige perceber repetidamente aquilo que se quer ignorar (Watzlawick et al., 1974).
A saída não consiste necessariamente em vencer o estímulo apenas pela força mental. Ela pode começar por mudanças concretas: iluminação mais confortável, redução de ruído, pausas, fones adequados, comunicação clara, menor imprevisibilidade e permissão para deixar temporariamente o ambiente.
Essas adaptações reduzem uma carga evitável. Recursos internos também podem ajudar: posição do corpo, distância do estímulo, respiração, um ponto de apoio visual ou a escolha de procurar um espaço mais protegido.
Não é fingir que o incômodo não existe. É impedir que ele ocupe sozinho todo o campo da experiência.
O Refúgio Interno: Retração como Mecanismo de Sobrevivência
Depois de horas de camuflagem, interação e sobrecarga sensorial, pode surgir uma necessidade intensa de retração. A pessoa quer fechar a porta, diminuir a luz, evitar conversas e permanecer em silêncio.
Esse movimento é frequentemente interpretado como frieza, preguiça ou rejeição. Em alguns casos, porém, ele funciona como uma tentativa espontânea de regulação.
Um estudo com adultos autistas descreveu um movimento de reagir à sobrecarga, retirar-se, recuperar-se e, depois, reconectar-se. A solitude apareceu não como ausência de interesse nas pessoas, mas como condição para recuperar presença (Neville et al., 2026). A necessidade de ficar só pode coexistir com desejo de vínculo (Quadt et al., 2024).
É como se o organismo dissesse:
“Antes de continuar em contato com o mundo, preciso voltar a entrar em contato comigo.”
Retração regulatória e depressão não são sinônimos, mas podem coexistir. No recolhimento restaurador, a redução de estímulos favorece o retorno gradual do interesse e do contato. Quando o isolamento se torna persistente ou involuntário, acompanhado por desesperança, sofrimento ou dificuldade de retomar atividades essenciais, é necessária uma avaliação mais ampla.
Um refúgio interno não é uma fuga permanente. É um espaço psicológico de recomposição.
Ele pode ser construído com silêncio, organização do ambiente, cores confortáveis, movimentos repetitivos, atividades manuais e experiências internas de segurança.
O aspecto central não é a forma do ritual, mas sua função. Algumas pessoas recuperam estabilidade organizando o espaço; outras precisam caminhar, ouvir a mesma música, mergulhar em um interesse ou simplesmente permanecer sem responder a ninguém. Quando esse intervalo é respeitado, a retração deixa de ser interpretada como rejeição e pode ser compreendida como preparação para um contato menos custoso.
Às vezes, aquilo que parece estranho para quem observa possui função reguladora: organizar objetos pode ajudar a organizar pensamentos; fechar uma porta pode permitir que a atenção deixe de vigiar o lado de fora.
Na tradição ericksoniana, esse olhar se aproxima do princípio da utilização: antes de combater automaticamente aquilo que a pessoa faz, o terapeuta investiga sua função e procura transformar capacidades, hábitos e respostas existentes em recursos para a mudança (Erickson & Rossi, 1976; O’Hanlon, 1987).
“O que essa resposta está tentando realizar por você?”
Possibilidades da Hipnose Ericksoniana na Descompressão e Regulação Emocional
A hipnose ericksoniana parte das maneiras que o sistema desenvolveu para se proteger e procura utilizá-las com maior flexibilidade. Na tradição de Milton Erickson, atenção, imaginação, linguagem e respostas espontâneas participam da própria comunicação terapêutica (Erickson & Rossi, 1976; O’Hanlon, 1987). Na minha prática clínica, isso frequentemente começa pela redução do conflito interno: em vez de ordenar “relaxe” a alguém que já se esforça demais, a pessoa é convidada a notar respostas que não precisam ser fabricadas, como o peso das mãos, um ponto de apoio ou uma pequena mudança na respiração.
Metáforas podem representar limites e segurança — um filtro acústico, uma porta que protege o silêncio — sem serem confundidas com mecanismos literais (Gordon, 1978). O ensaio mental também permite experimentar uma pausa, pedir silêncio ou reconhecer mais cedo os sinais de sobrecarga. O objetivo é ampliar escolhas, não construir uma nova performance.
A terapia breve focada em soluções procura exceções, recursos e condições nas quais a vida já exige menos esforço. Revisões recentes oferecem suporte geral a essa abordagem para diferentes desfechos psicossociais, sem estabelecer eficácia específica para masking ou burnout autista (Żak & Pękala, 2025; Vermeulen-Oskam et al., 2024).
Cabe um cuidado epistemológico breve. A pesquisa experimental costuma medir componentes da hipnose, como atenção, relaxamento e indicadores autonômicos; uma revisão de 49 estudos encontrou tendências psicofisiológicas favoráveis, mas também limitações metodológicas relevantes (Fernandez et al., 2022). Minha posição clínica contempla outro nível: compreendo a hipnose ericksoniana como epistemologia e metodologia psicoterapêutica autônomas, e não como técnica secundária. Essa leitura se apoia na utilização da experiência singular e dos processos involuntários da pessoa (Erickson & Rossi, 1976; Rossi, 2004). São perspectivas diferentes e dialogáveis, que o leitor pode conhecer sem precisar aderir a um dogma.
Na prática, o trabalho pode ajudar a pessoa a reconhecer limites, negociar acomodações, diminuir a luta contra seu funcionamento e descobrir condições nas quais estar presente exige menos esforço. A intervenção clínica não deve ser usada para normalizar ambientes nocivos nem substituir adaptações e cuidados necessários.
Se você se reconhece nesse ciclo de esforço, camuflagem e exaustão, talvez o primeiro passo não seja aprender a fingir melhor.
Pode ser compreender o que seu cansaço está tentando proteger.
Em um atendimento individual com Victor Lawrence, é possível avaliar se a hipnose ericksoniana e a terapia breve focada em soluções são adequadas ao seu momento, sempre considerando sua história, seus limites, as adaptações concretas de que necessita e sua maneira singular de perceber o mundo.
Porque autonomia não é conseguir suportar tudo.
É poder escolher onde colocar a própria energia.
Referências
Ali, D., Bougoure, M., Cooper, B., Quinton, A. M. G., Tan, D., Brett, J., Mandy, W., Maybery, M., Magiati, I., & Happé, F. (2025). Burnout as experienced by autistic people: A systematic review. Clinical Psychology Review, 122, 102669. https://doi.org/10.1016/j.cpr.2025.102669
Bradley, L., Shaw, R., Baron-Cohen, S., & Cassidy, S. (2021). Autistic adults’ experiences of camouflaging and its perceived impact on mental health. Autism in Adulthood, 3(4), 320–329. https://doi.org/10.1089/aut.2020.0071
Cook, J., Hull, L., Crane, L., & Mandy, W. (2021). Camouflaging in autism: A systematic review. Clinical Psychology Review, 89, 102080. https://doi.org/10.1016/j.cpr.2021.102080
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Raymaker, D. M., Teo, A. R., Steckler, N. A., Lentz, B., Scharer, M., Delos Santos, A., Kapp, S. K., Hunter, M., Joyce, A., & Nicolaidis, C. (2020). “Having all of your internal resources exhausted beyond measure and being left with no clean-up crew”: Defining autistic burnout. Autism in Adulthood, 2(2), 132–143. https://doi.org/10.1089/aut.2019.0079
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Nota de cuidado: Este texto é informativo e não substitui avaliação individual. Exaustão, isolamento e alterações persistentes de funcionamento podem ter diferentes causas e merecem investigação profissional quando provocam sofrimento ou prejuízo significativo.
Dúvidas comuns
Perguntas Frequentes
Camuflagem social acontece apenas no autismo?
Estratégias de adaptação e ocultação podem aparecer em diferentes experiências humanas. No entanto, a literatura mais consistente sobre masking se concentra no autismo, e conceitos como alta sensibilidade, TDAH e camuflagem autista não são equivalentes.
A necessidade de ficar só significa depressão?
Não necessariamente. A retração temporária pode ajudar a reduzir estímulos e recuperar presença. Quando o isolamento se torna persistente, involuntário ou acompanhado de desesperança e prejuízo importante, é indicado buscar uma avaliação clínica mais ampla.
É possível reduzir o masking sem abandonar todas as convenções sociais?
Sim. O objetivo não é uma exposição sem limites, mas recuperar escolha: reconhecer quando uma adaptação protege, quando ela custa demais e onde é possível pedir clareza, pausa ou acomodação.
A hipnose ericksoniana trata especificamente masking ou burnout autista?
A literatura atual não permite afirmar eficácia específica para essas condições. Na clínica, ela pode integrar um trabalho individualizado de atenção, imaginação, regulação e utilização de recursos, sempre junto das adaptações ambientais e demais cuidados necessários.
Psicoterapia para adultos
Organização da condução clínica
Comentários externos destacam a importância de uma escuta estruturada, com explicações compreensíveis e acompanhamento ajustado ao momento de cada adulto.
Experiências individuais variam. Avaliação clínica individualizada é necessária.
